Com Selic em 14,50%, fundos de renda fixa e Tesouro Direto crescem juntos
Dois caminhos para o mesmo tipo de risco: um cobra taxa, o outro não.
A Selic em 14,50% ao ano torna a renda fixa atraente, e o investidor pessoa física tem dois caminhos principais para capturar esse rendimento. Um é comprar fundos de renda fixa, que concentram títulos públicos e privados em uma carteira profissional. O outro é comprar títulos diretamente no Tesouro Direto, sem intermediário. Os números dos últimos meses mostram que ambos os canais estão crescendo simultaneamente, alimentados pelo mesmo fator: juro real positivo em patamar elevado.
Os fundos de renda fixa captaram R$ 7,18 bilhões em fluxo líquido nos 30 dias até 1º de maio de 2026, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários. Fluxo líquido é a diferença entre o dinheiro que entrou (aplicações) e o que saiu (resgates) no período. Quando o número é positivo, significa que mais investidores estão colocando dinheiro nesses fundos do que retirando. No mesmo período, o estoque do Tesouro Direto atingiu R$ 250,04 bilhões em 1º de maio de 2026, com variação de 13,53% no trimestre entre janeiro e maio de 2026. Ambos os números apontam na mesma direção: juro alto alimenta os dois canais.
A diferença prática entre eles está na taxa de administração e na complexidade operacional. Um fundo de renda fixa cobra taxa anual, tipicamente entre 0,50% e 1,50% do patrimônio investido, e oferece diversificação automática e gestão profissional. O gestor do fundo escolhe os títulos, ajusta a carteira conforme o cenário de juros e crédito, e o investidor recebe o rendimento líquido dessas decisões. O Tesouro Direto não cobra taxa de fundo, apenas a taxa de custódia da B3 de 0,20% ao ano sobre o valor investido (com isenção para quem tem até R$ 10 mil aplicados em Tesouro Selic). Mas exige que o investidor escolha o título, o prazo e a estratégia por conta própria. Para quem quer simplicidade e não se importa com a taxa, o fundo é mais prático. Para quem quer economizar na taxa e tem paciência de aprender a diferença entre Tesouro Selic, Tesouro IPCA+ e Tesouro Prefixado, o Tesouro Direto é mais barato.
É importante notar uma ressalva sobre esses números. A captação líquida dos fundos mede movimento de caixa, ou seja, quanto entrou menos quanto saiu em dinheiro novo. O estoque do Tesouro Direto, por outro lado, é marcado a mercado diariamente, o que significa que a variação de 13,53% mistura entrada de capital novo com ganho ou perda de preço dos títulos já em carteira. Em um trimestre onde os juros futuros oscilaram, os preços dos títulos prefixados e indexados à inflação também oscilaram, inflando ou deflando o estoque sem necessariamente haver entrada proporcional de capital novo. Os dois números medem coisas diferentes e não são diretamente comparáveis em magnitude, mas ambos indicam movimento positivo nos dois canais.
O regime classificado é ambos atraem, o que significa que fundos e Tesouro Direto estão crescendo juntos, sem sinal de substituição de um canal pelo outro. O investidor está escolhendo entre eles conforme sua preferência por praticidade versus economia de taxa, não conforme um esteja claramente ganhando mercado do outro. Esse padrão é típico de ciclos de juro real elevado: quem tem dinheiro parado em conta corrente ou em aplicações de renda variável migra para renda fixa, e a escolha entre fundo e Tesouro Direto depende mais do perfil do investidor do que de vantagem absoluta de um sobre o outro.
Para quem já tem dinheiro em poupança, que rende cerca de 70% da Selic (ou 10,15% ao ano com a Selic em 14,50%), ou em aplicações de renda variável, o cenário atual oferece uma alternativa de renda fixa com rendimento real positivo. A Selic real, descontada a inflação acumulada em 12 meses, está acima de 9% ao ano, patamar que não se via com frequência desde o ciclo de aperto monetário de 2015 e 2016. A escolha entre fundo e Tesouro Direto depende menos do mercado e mais do seu perfil: se prefere deixar a gestão com profissionais e pagar pela conveniência, o fundo é o caminho. Se prefere controlar cada detalhe, entender a marcação a mercado dos títulos e economizar taxa, o Tesouro Direto é a opção. Ambos os canais entregam exposição ao mesmo ativo subjacente, que é a dívida pública brasileira, com a diferença residindo na camada de intermediação e no custo dessa camada.
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