Confiança setorial divide Brasil entre otimismo do consumidor e pessimismo industrial
Indústria e construção recuam enquanto comércio e consumidor avançam em junho de 2026.
As sondagens de confiança setorial de junho de 2026 revelam um Brasil dividido. Dois componentes operam acima da norma (comércio e consumidor), dois abaixo (indústria e construção), e dois na zona neutra (expectativas de ambos). A média das variações anuais recua 1,08 ponto percentual, sinalizando enfraquecimento geral da confiança apesar da heterogeneidade entre setores.
Estes índices medem o que empresários e consumidores acreditam sobre o presente e o futuro próximo. A CNI pergunta a industriais sobre situação atual e perspectivas. A CNC e FGV fazem o mesmo com varejistas e construtores. A Fecomercio-SP sonda consumidores sobre renda e disposição de gastar. As respostas viram números em escalas próprias de cada entidade. A norma varia: indústria usa 50 como ponto neutro (acima significa otimismo), enquanto comércio, construção e consumidor usam 100 (acima significa otimismo). Quando lidas juntas, estas sondagens costumam anteceder movimentos da atividade real em um a três meses. A defasagem temporal existe porque empresários e consumidores ajustam expectativas antes de ajustar decisões de produção, contratação ou compra. O que aparece nas sondagens de maio tende a se materializar nos dados de atividade de julho ou agosto.
A indústria está em pessimismo claro. O índice geral da CNI (ICEI) fechou em 47,20 pontos em maio de 2026, abaixo dos 50 que marcam neutralidade. Pior: a variação de 12 meses é de 1,70 ponto percentual negativa, e o nível atual toca o percentil 0,10 em cinco anos, um dos pisos históricos do período. Isso significa que apenas 10% das leituras mensais dos últimos cinco anos ficaram abaixo do patamar atual. A indústria brasileira não via confiança tão deprimida desde o início de 2021, quando a segunda onda da pandemia travou cadeias produtivas e a inflação de insumos começava a pressionar margens.
As expectativas industriais (49,30 pontos) ficam na zona neutra, apenas 0,70 ponto abaixo do limiar, com queda de 2,00 pontos percentuais em 12 meses. O percentil 0,12 em cinco anos coloca as expectativas também entre as mais baixas do período recente. Predominância de avaliação negativa no presente, cautela sobre o que vem adiante. O empresário industrial não está otimista, mas também não está em pânico. A leitura sugere acomodação em patamar baixo, não colapso iminente. Indústria sensível a juro real elevado, câmbio volátil e demanda doméstica fraca tende a operar nesse registro por trimestres seguidos até que algum desses fatores ceda.
O comércio apresenta quadro misto. O índice atual (ICEC) está em 98,92 pontos em maio de 2026, tecnicamente neutro (dois pontos abaixo de 100), com queda de 1,86 ponto percentual em 12 meses. O percentil 0,05 em cinco anos indica que o nível atual está entre os mais baixos do período, pior até que a indústria em termos relativos. Apenas 5% das leituras mensais dos últimos cinco anos ficaram abaixo de 98,92 pontos. O varejo está operando próximo do piso histórico recente, refletindo margem apertada, inadimplência elevada e custo de crédito alto para o consumidor final.
Mas as expectativas comerciais (IEEC) saltam para 123,28 pontos, bem acima de 100, sinalizando predominância de avaliação positiva sobre os próximos meses. O recuo anual das expectativas é mais acentuado: 7,62 pontos percentuais negativos em 12 meses, o maior declínio do painel. O percentil 0,03 em cinco anos coloca as expectativas do comércio entre as mais baixas da série, pior que o nível atual. Apesar disso, o patamar permanece otimista em termos absolutos, sugerindo que varejistas ainda esperam melhora mesmo tendo reduzido esperança em relação ao ano anterior. A leitura é de otimismo condicionado: o empresário do varejo acredita que o pior já passou, mas não espera recuperação vigorosa. Espera normalização gradual, não boom.
A construção fecha o quadro pessimista. O índice FGV de junho de 2026 está em 91,70 pontos, abaixo de 100, com predominância de avaliação negativa. A queda de 12 meses é de 2,10 pontos percentuais. O percentil 0,07 em cinco anos coloca o setor entre os patamares mais deprimidos do período recente. Construção é sensível a juro real e financiamento. O nível baixo aponta para dificuldade de acesso ao crédito ou expectativa de demanda fraca nos próximos trimestres. Com Selic real acima de 9% ao ano (dado de contexto macroeconômico amplamente divulgado), financiamento imobiliário fica caro e construtoras operam com margem comprimida. O setor não vê luz no fim do túnel no horizonte de curto prazo.
O consumidor é a exceção. O índice da Fecomercio-SP (ICC) fechou em 120,55 pontos em maio de 2026, bem acima de 100, com predominância clara de avaliação positiva. Mais notável: é o único componente com ganho anual, de 8,82 pontos percentuais positivos em 12 meses. O percentil 0,48 em cinco anos indica que o nível está próximo da mediana histórica, nem particularmente alto nem baixo. Consumidor está otimista, mas não em patamares excepcionais. A leitura sugere que o brasileiro médio sondado pela Fecomercio-SP (base paulista, portanto enviesada para o estado mais rico da federação) vê renda estável ou em leve alta, emprego relativamente seguro e disposição de gastar mantida. O contraste com a indústria e a construção é gritante. O consumidor não sente o pessimismo do empresário industrial, ou sente mas ainda não ajustou comportamento.
Em conjunto, o painel sinaliza tendência mista para os próximos um a três meses. Indústria e construção apontam para pressão na atividade real desses setores. Comércio e consumidor apontam para resiliência, ainda que o varejo opere próximo do piso histórico. A defasagem típica entre sondagem e atividade (um a três meses) sugere que dados de PIM-PF (produção industrial), PMC (vendas no varejo) e FBKF (formação bruta de capital fixo, proxy de investimento) dos próximos meses podem confirmar ou desmentir o que estas sondagens indicam. O quadro não é de colapso nem de expansão, mas de ajuste setorial desigual. Setores ligados a crédito e investimento sofrem. Setores ligados a consumo corrente resistem. A economia brasileira de meados de 2026 opera em duas velocidades, e as sondagens capturam essa dualidade com precisão.
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