Diferencial de juros em 10,62 pontos percentuais não sustenta força do real
Prêmio de 10,62 pontos percentuais sobre o Fed Funds não impediu oscilações contraditórias do câmbio nos últimos meses.
O diferencial entre a Selic e o Fed Funds está em 10,62 pontos percentuais. A Selic meta é de 14,25% ao ano, enquanto o Fed Funds de maio de 2026 ficou em 3,63%. Esse prêmio remunera quem fica posicionado em real: quanto maior o diferencial, maior a compensação por manter a moeda brasileira em vez de aplicar em dólar americano. A lógica clássica do carry trade sugere que juros reais mais altos no Brasil atraem capital estrangeiro em busca de retorno, o que aumenta a demanda por real e aprecia a moeda. Mas os dados dos últimos meses mostram que essa relação está fraca.
Em 62 meses, o diferencial oscilou entre 3,44 pontos percentuais no piso e 12,04 pontos percentuais no teto. O patamar atual de 10,62 pontos percentuais está próximo do topo dessa faixa, o que historicamente sinalizaria força do real. A correlação esperada entre o diferencial de juros e a força do real é negativa: diferencial maior deveria significar real mais forte, ou seja, taxa de câmbio menor. Mas a correlação estrutural entre essas duas séries nos últimos 62 meses é de apenas -0,08, praticamente nula. Isso significa que o carry, apesar de remunerar bem, explica muito pouco do movimento do câmbio nessa janela.
A taxa de câmbio está em R$ 5,1740 por dólar em 23 de junho de 2026. Nos últimos 180 dias, o real apreciou 6,52% frente ao dólar, enquanto o diferencial de juros permanecia elevado, entre 10 e 12 pontos percentuais. Esse movimento de apreciação ocorreu sem que o prêmio de juros tivesse aumentado de forma proporcional, sugerindo que outros fatores dominaram o câmbio no período. Fluxo comercial favorável, entrada de investimento direto estrangeiro, ou redução temporária da percepção de risco-país podem ter pesado mais que o carry.
Os últimos 30 dias ilustram a desconexão de forma ainda mais clara. O real cedeu 3,20% frente ao dólar no período, mesmo com o diferencial mantendo-se acima de 10 pontos percentuais. Nos 90 dias anteriores, o movimento foi oposto: o real ganhou 1,02% de força enquanto o diferencial oscilava na mesma faixa. Variações dessa magnitude e direção contraditória sugerem que o carry não está funcionando como âncora do câmbio. O real está respondendo a outros sinais, e o prêmio de juros, por maior que seja, não consegue segurar a moeda quando esses sinais apontam para saída de capital ou aversão a risco.
É importante ressalvar que o Fed Funds é divulgado mensalmente, e o diferencial é reconstruído mês a mês, não dia a dia. A correlação mede co-movimento, não causalidade. O carry é um dos motores do câmbio, mas não o único. Variações cambiais de curto prazo podem refletir ruído ou fatores transitórios que uma correlação de 62 meses não captura. O real pode estar respondendo a fluxos comerciais de curto prazo, a ajustes de posição de investidores estrangeiros, ou a mudanças na percepção de risco fiscal brasileiro, enquanto o prêmio de juros segue elevado.
O regime atual é classificado como carry fraco: a relação entre o diferencial de juros e o câmbio existe, mas é tênue. O real não desacoplou completamente do carry, nem o acompanha de forma consistente. Isso deixa o câmbio mais sensível a outros sinais, tornando a projeção de curto prazo mais incerta. Para quem opera em real, o diferencial de 10,62 pontos percentuais continua sendo uma remuneração relevante, mas não é garantia de estabilidade cambial. O investidor que entra em carry trade brasileiro precisa monitorar não apenas o diferencial de juros, mas também o fluxo de capitais, a percepção de risco fiscal, e o movimento do dólar global, fatores que nos últimos meses pesaram mais que o prêmio oferecido pela Selic.