Diferencial de juros Brasil-EUA chega a 10,62 pontos percentuais, mas real não responde ao carry trade
Prêmio elevado deveria atrair capital estrangeiro, porém correlação com câmbio é praticamente nula em 63 meses.
O diferencial entre a Selic e o Fed Funds atingiu 10,62 pontos percentuais em julho de 2026, segundo cálculo do Elucidados com dados do Banco Central e do Federal Reserve. A Selic está em 14,25% ao ano, enquanto o Fed Funds permanece em 3,63%, patamar definido pelo Federal Open Market Committee em junho. Essa diferença de juros é o prêmio que remunera quem fica posicionado em real via carry trade, a estratégia de tomar emprestado em moeda de juros baixos (dólar) e aplicar em moeda de juros altos (real), apostando que o câmbio não se mova contra essa posição.
Nos últimos 63 meses, o diferencial oscilou entre 3,44 e 12,04 pontos percentuais, o que coloca o nível atual no percentil 88 da janela histórica. O patamar de 10,62 pontos percentuais fica apenas 1,42 ponto percentual abaixo do máximo registrado no período, sinalizando que o prêmio do carry está em território elevado. Em termos práticos, um diferencial dessa magnitude deveria atrair capital estrangeiro para aplicações em real, fortalecendo a moeda brasileira. A lógica clássica do carry trade é exatamente essa: juros maiores no Brasil significam real mais forte, porque investidores globais buscam o retorno adicional e precisam comprar reais para aplicar aqui.
Porém, a correlação entre o diferencial de juros e a força do real nos últimos 63 meses é praticamente nula, em -0,08. Isso significa que o real não tem andado na direção esperada pelo carry trade. A correlação próxima de zero indica ausência de relação estatística consistente entre as duas séries ao longo do período analisado. Quando o diferencial sobe, o real não necessariamente se fortalece. Quando o diferencial cai, o real não necessariamente se enfraquece. O padrão esperado pela teoria do carry simplesmente não aparece nos dados mensais.
Nos últimos 30 dias, o real ganhou 1,07% de força frente ao dólar, apesar do diferencial de juros estar em patamar elevado. Nos últimos 90 dias, o real cedeu 2,11%, movimento que também não se alinha com a lógica de um carry forte operando de forma isolada. Quando se observa a janela mais longa, de 180 dias, o real ganhou 4,64% de força, período em que o diferencial oscilou bastante, sugerindo descolamento entre as duas séries. A taxa de câmbio está em R$ 5,0891 por dólar no pregão de 20 de julho de 2026, refletindo múltiplas forças simultâneas que vão além do diferencial de juros.
Essa desconexão não é acidental nem indica falha do carry trade como conceito. O carry é um dos motores do câmbio, mas não é o único. Risco-país, fluxo comercial, cenário global de aversão ao risco, movimentos do dólar em relação a outras moedas emergentes e percepção de sustentabilidade fiscal doméstica também pesam significativamente na formação da taxa de câmbio. Quando o real não responde ao diferencial de juros da forma esperada, é sinal de que outros fatores estão dominando a dinâmica cambial naquele período. Pode ser aversão ao risco emergente generalizada, saída de capitais por razões macroeconômicas domésticas como deterioração fiscal, ou simplesmente o dólar global se fortalecendo contra todas as moedas, independentemente dos juros brasileiros.
O carry trade funciona melhor em ambientes de baixa volatilidade e apetite ao risco estável. Quando a volatilidade sobe ou quando há choque externo relevante, o diferencial de juros perde poder explicativo sobre o câmbio. O investidor estrangeiro pode olhar para os 10,62 pontos percentuais de prêmio e decidir que o risco não compensa, seja por incerteza política, seja por expectativa de desvalorização cambial que anularia o ganho de juros. Nesse cenário, o carry deixa de atrair fluxo, e o real fica à mercê de outras variáveis.
Uma ressalva importante sobre a metodologia: a correlação medida aqui é entre séries mensais, e o Fed Funds é apurado com defasagem em relação à Selic, já que o Federal Reserve divulga a taxa efetiva com atraso de algumas semanas. A ausência de relação estatística não implica que o carry não funcione em períodos específicos, mas que em janelas alternadas, outros fatores conseguem sobrepujar o efeito do diferencial de juros. O real continua respondendo a múltiplas forças simultaneamente, e o diferencial de juros é apenas uma delas, nem sempre a dominante.
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