Custo do crédito está 9,76 pontos percentuais acima da Selic
Spread bancário amplia enquanto taxa básica se mantém estável, sinalizando pressão de risco e custos operacionais.
O custo do crédito no Brasil segue em três patamares bem definidos. A Selic, taxa básica de juros, está em 14,50% ao ano em maio de 2026. O ICC (Indicador de Custo do Crédito), que mede o custo médio efetivo de todas as modalidades de crédito no sistema financeiro nacional, está em 24,26% ao ano no mesmo período. E o cartão rotativo, a modalidade mais cara do sistema, opera na casa de 439,87% ao ano. São ordens de grandeza distintas, cada uma refletindo um tipo diferente de risco e operação.
O spread bancário, a diferença entre o ICC e a Selic, está em 9,76 pontos percentuais. Esse spread não é lucro puro dos bancos, como parte do público imagina. Dentro dele estão embutidos a inadimplência esperada (quanto o banco calcula que vai perder com clientes que não pagam), custos administrativos (pessoal, tecnologia, infraestrutura, agências físicas), tributos diretos e indiretos sobre operações de crédito, e a margem operacional propriamente dita. A Selic explica menos da metade do ICC. Apenas 59,77% do custo total que o tomador médio paga vem da taxa básica. O restante, 40,23%, vem do que o sistema bancário adiciona sobre essa base, seja por risco de crédito, seja por custo de intermediação.
Essa decomposição importa porque revela que política monetária sozinha não determina o custo final do crédito. Quando o Banco Central sobe ou desce a Selic, o efeito sobre o ICC é parcial e defasado. Contratos já firmados seguem as condições originais até o vencimento. Novas operações incorporam a taxa básica atualizada, mas também refletem a percepção de risco do momento, que pode estar subindo mesmo com Selic estável, ou caindo mesmo com Selic em alta. O ICC é, portanto, um termômetro mais fiel do custo efetivo de emprestar no Brasil do que a Selic isolada.
O que chama atenção na leitura de maio de 2026 é a trajetória recente. O ICC subiu 1,30 ponto percentual nos últimos 12 meses enquanto a Selic se manteve estável em 14,50% ao longo de todo esse período. Isso significa que o spread sistêmico está se ampliando. Os bancos estão elevando o prêmio de risco e os custos operacionais independentemente do movimento da taxa básica. Pode ser resposta a inadimplência maior em segmentos específicos, como crédito consignado ou veículos. Pode ser custos de captação mais altos no mercado interbancário, pressionados por percepção de risco fiscal. Pode ser ajuste de margem em ambiente de incerteza regulatória ou macroeconômica. A relação entre Selic e ICC não é mecânica nem instantânea. Há defasagem entre movimentos da taxa básica e renegociação de contratos, que pode levar semanas ou meses dependendo da modalidade.
O cartão rotativo segue como caso extremo dentro do sistema. A taxa de 439,87% ao ano não é erro de escala nem anomalia estatística. É a realidade de uma modalidade onde a inadimplência média fica acima de 20,0% ao ano, segundo dados históricos do Banco Central. O cartão rotativo é crédito de altíssimo risco, sem garantia real, sem análise de crédito profunda, concedido de forma quase automática a quem já tem o plástico. Não é comparável com ICC ou Selic em termos de política monetária. Mas sua existência no sistema revela algo sobre o acesso ao crédito no Brasil. Quem não consegue empréstimo convencional, seja por renda insuficiente, seja por histórico de inadimplência, acaba pagando centenas de pontos percentuais de juros. O cartão rotativo funciona como válvula de escape do sistema, mas a um custo que pode inviabilizar qualquer planejamento financeiro de longo prazo.
Para quem toma crédito, o spread ampliando sinaliza que o custo de emprestar está subindo independentemente de movimentos da Selic. Mesmo que o Banco Central mantenha a taxa básica estável ou inicie ciclo de cortes, o ICC pode continuar subindo se a inadimplência pressionar ou se os bancos ajustarem margem por percepção de risco. Para quem poupa em Selic pura, via Tesouro Selic ou fundos DI, é lembrete de que a taxa básica é apenas o piso da estrutura de juros. O que o sistema cobra efetivamente está acima disso e crescendo. A distância entre o que o governo paga para se financiar e o que o cidadão paga para tomar crédito continua sendo uma das maiores do mundo.
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